Como a relação Brasil-EUA pode mudar dependendo de quem ganhar a eleição

Como a relação Brasil-EUA pode mudar dependendo de quem ganhar a eleição

Rate this post

A relação Brasil-EUA chega à eleição de 4 de outubro de 2026 no ponto mais tenso em décadas. Produtos brasileiros pagam sobretaxas de até 37,5% nos Estados Unidos, e o tema virou um dos assuntos centrais da campanha presidencial.

Para quem mora nos Estados Unidos, isso não é uma discussão distante. O resultado das urnas pode mexer no valor do dólar que você envia para a família, no preço do café e da carne que você compra no mercado brasileiro do bairro e até no clima político entre os dois governos.

Neste artigo, você vai entender de forma equilibrada o que está em jogo. Vamos mostrar o que propõem os dois candidatos que lideram as pesquisas, quais setores ficam mais expostos e o que muda, na prática, para o brasileiro que vive na América.

Um aviso importante antes de começar: ninguém sabe ao certo como cada governo agiria depois de eleito. Por isso, aqui você encontra cenários prováveis, baseados em planos de governo, declarações públicas e na avaliação de analistas, e não previsões garantidas.

Como a relação Brasil-EUA chegou até aqui

Para entender o que pode mudar, é preciso lembrar como a crise começou. Em julho de 2025, o governo Trump anunciou uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e citou o processo contra Jair Bolsonaro como uma das justificativas.

O detalhe que muita gente esquece é que os Estados Unidos vendem mais para o Brasil do que compram. Em 2024, os americanos tiveram superávit de cerca de US$ 7,4 bilhões no comércio de bens com o Brasil, o que tornou a medida incomum.

Desde então, a disputa passou por várias reviravoltas. A tabela abaixo resume os principais marcos que moldaram a relação entre os dois países.

QuandoO que aconteceu
Abril de 2025EUA aplicam tarifa básica de 10% sobre produtos brasileiros
Julho e agosto de 2025Sobretaxa total chega a 50%, com cerca de 700 itens isentos, como aeronaves, suco de laranja e celulose
Segundo semestre de 2025Sanções financeiras e restrições de visto atingem ministros do STF
Novembro de 2025Após reaproximação entre Lula e Trump, a tarifa geral de 10% é retirada para parte dos produtos
20 de fevereiro de 2026Suprema Corte americana derruba, por 6 a 3, as tarifas baseadas na lei de emergência (IEEPA)
Fevereiro de 2026Trump cria tarifa global temporária de 10%; aço e alumínio seguem com até 50%
Maio de 2026EUA classificam PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas
Julho de 2026Nova rodada: 25% por práticas comerciais consideradas desleais e 12,5% ligados a trabalho forçado
Agosto e setembro de 2026Telefonema entre Lula e Trump reabre negociações, ainda sem acordo

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), as tarifas de julho de 2026 atingem 3.985 produtos. Isso representa cerca de US$ 10,8 bilhões em mercadorias brasileiras vendidas aos EUA.

Em paralelo, o governo brasileiro abriu os procedimentos da Lei de Reciprocidade, que permite retaliar barreiras comerciais consideradas injustas. O Brasil também levou o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

Quem disputa a Presidência e por que os EUA viraram tema de campanha

A corrida presidencial está concentrada em dois nomes: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca o quarto mandato, e o senador Flávio Bolsonaro (PL), filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na pesquisa Datafolha feita entre 22 e 23 de setembro, Lula aparecia com 40% das intenções de voto e Flávio com 36%. Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos e Augusto Cury vêm bem atrás, com percentuais de um dígito.

Nas simulações de segundo turno, os dois principais candidatos aparecem tecnicamente empatados, dentro da margem de erro. Se ninguém passar de 50% dos votos válidos, a decisão fica para 25 de outubro, e o eleito toma posse em 5 de janeiro de 2027.

Por que os Estados Unidos entraram no debate

A política externa raramente decide eleições no Brasil, mas 2026 é uma exceção. Lula transformou a defesa da soberania nacional em bandeira de campanha, enquanto Flávio aposta na proximidade com o governo Trump como trunfo para destravar negociações.

O eleitor também enxerga essa ligação. Segundo o Datafolha, 52% dos brasileiros acreditam que Trump impôs as tarifas para favorecer Flávio. Já levantamentos da Quaest indicaram que mais eleitores culparam o senador do que o presidente pela tarifa de 25% anunciada em julho.

Do outro lado, a oposição argumenta que o alinhamento de Lula com o BRICS e as críticas diretas a Trump queimaram pontes com Washington. Para esse grupo, a crise é resultado de escolhas diplomáticas do atual governo, e não apenas de pressão externa.

Cenário 1: se Lula for reeleito

Um quarto mandato de Lula tende a manter a linha atual: negociar com Washington sem abrir mão do que o governo chama de soberania. Na prática, isso significa conversas técnicas contínuas, mas com limites bem definidos.

O que provavelmente continua

O governo já deixou claras algumas linhas vermelhas. Uma delas é que reduzir a tarifa sobre o etanol americano só faz sentido se os EUA abrirem o mercado de açúcar, algo que Washington historicamente recusa.

A equipe de Lula também rejeitou um acordo nos moldes do firmado entre EUA e Argentina, considerado desequilibrado e em conflito com regras do Mercosul. Defender o Pix e a regulação das big techs deve seguir na pauta.

No restante do mundo, a aposta é na diversificação. O Brasil seguiria no BRICS, com a China como maior parceira comercial, e trabalharia pela implementação do acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigência provisória.

Pontos fortes desse cenário

Os defensores da continuidade destacam a previsibilidade. Investidores, parceiros e negociadores já conhecem o estilo do governo, e acordos em andamento não precisariam recomeçar do zero.

Outro argumento é que depender menos dos EUA protege o Brasil de choques políticos vindos de Washington. A popularidade de Lula, inclusive, cresceu quando ele reagiu às tarifas em nome da soberania nacional.

Pontos de atenção

Críticos e parte dos analistas avaliam que as tarifas de 37,5% tendem a continuar sem um acordo estrutural. O Brasil também segue fora do Escudo das Américas, aliança de segurança criada por Trump que já reúne 17 países do continente.

Há ainda o risco de sanções secundárias. Manter laços no BRICS com países sob pressão americana pode complicar a vida de empresas brasileiras que vendem para os dois lados.

Se as negociações travarem de vez, Lula já disse que pode acionar a Lei de Reciprocidade. Uma retaliação brasileira abriria espaço para uma nova escalada comercial entre os dois países.

Cenário 2: se Flávio Bolsonaro vencer

A reaproximação com os Estados Unidos é a mudança de política externa mais provável e mais rápida de um eventual governo Flávio Bolsonaro. O plano de governo entregue ao TSE fala em reconstruir laços com EUA, Argentina e Israel.

O documento defende uma diplomacia guiada por interesses econômicos e promete buscar soluções diplomáticas contra sanções dos EUA, da China e da Europa. Ele não cita Trump nem detalha como as tarifas seriam derrubadas.

O que provavelmente muda

Em maio, na Casa Branca, Flávio conversou com Trump sobre tarifas e terras raras. Segundo a imprensa internacional, ele também sinalizou que o Brasil entraria no Escudo das Américas caso seja eleito.

O plano ainda propõe acelerar a entrada do Brasil na OCDE, abertura comercial gradual e o fim progressivo do IOF sobre câmbio. Na campanha, o candidato falou em libertar o país das amarras do Mercosul, frase que ainda gera dúvidas sobre seu alcance.

Pontos fortes desse cenário

Apoiadores argumentam que Flávio chegaria à mesa com capital de boa vontade em Washington. Isso poderia facilitar a redução das tarifas sobre setores como madeira, móveis e motores elétricos.

A adesão à OCDE é vista por economistas de diferentes correntes como positiva para a credibilidade do país, o que pode baratear o crédito e atrair investimentos estrangeiros.

Pontos de atenção

Analistas lembram que alinhamento político não garante abertura de mercado. No primeiro governo Bolsonaro, a proximidade com Trump não gerou ganhos comerciais concretos e relevantes para o Brasil.

A China compra cerca de 30% das exportações brasileiras, e um alinhamento forte com Washington pode gerar atritos com Pequim. Mexer no Mercosul também poderia ameaçar o acordo com a União Europeia, negociado em bloco.

Críticos ainda apontam o custo de soberania de entrar no Escudo das Américas. Já a própria campanha de Flávio pediu ao governo americano que adiasse novas tarifas, o que mostra que nem mesmo ele controla a agenda de Washington.

Tarifas e comércio: o que cada resultado pode significar

Independentemente de quem vencer, as tarifas americanas não vão desaparecer da noite para o dia. Elas dependem de decisões de Washington, de investigações formais e, em alguns casos, de disputas na Justiça dos EUA.

O que muda é o ponto de partida da negociação. A tabela abaixo compara, de forma simplificada, como cada cenário tende a se comportar nos principais temas da relação bilateral.

TemaCom Lula reeleitoCom Flávio eleito
Tarifas de até 37,5%Negociação técnica, com risco de se tornarem permanentesAmbiente político mais favorável, sem garantia de redução
Estilo diplomáticoDefesa da soberania e diversificação de parceirosReaproximação explícita com o governo Trump
Escudo das AméricasBrasil segue foraAdesão provável
BRICSParticipação mantida e aprofundadaSem posição declarada no plano
ChinaRelação estável e próximaPragmatismo prometido, com risco de atrito
Mercosul e acordo com a UEPrioridade na implementaçãoProposta de mais flexibilidade ao bloco
Lei de ReciprocidadePode ser acionada se as conversas travaremUso pouco provável

Setores mais expostos

As exportações de manufaturados sentem mais o impacto. Madeira, móveis e motores elétricos estão entre os produtos que pagam as maiores sobretaxas, segundo análises regionais da indústria.

Aço e alumínio formam um caso à parte. Essas tarifas existem desde 2018, com base em segurança nacional, e não foram retiradas nem pelo governo Biden. Por isso, dificilmente mudam por causa da eleição brasileira.

No agronegócio, o jogo é duplo. Um afastamento da China pode prejudicar soja, minério e carne, enquanto um impasse prolongado com os EUA mantém o custo extra para produtos vendidos no mercado americano.

Política externa além das tarifas

A disputa com os EUA é só uma parte de um tabuleiro maior. As escolhas do próximo presidente sobre China, BRICS, minerais estratégicos e vizinhos sul-americanos também pesam na forma como Washington enxerga o Brasil.

China e BRICS

A China é a maior parceira comercial do Brasil há mais de uma década. Qualquer governo, de esquerda ou de direita, terá dificuldade em se afastar de Pequim sem prejudicar exportadores de soja, minério e proteína animal.

Lula aposta no BRICS e no chamado Sul Global como forma de reduzir a dependência dos EUA. Flávio promete pragmatismo com a China, mas seu programa não menciona o BRICS, o que deixa uma interrogação para parceiros e investidores.

Minerais críticos e terras raras

Esse é um ponto pouco explorado pelos concorrentes, mas decisivo. O Brasil tem uma das maiores reservas de terras raras do mundo, e os EUA querem garantir acesso a esses minerais para reduzir a dependência da China.

Analistas americanos observam que Lula e Flávio têm mais pontos em comum do que parece nesse tema. A diferença está no ritmo e nas condições: um governo de oposição tende a oferecer acesso mais rápido e alinhado aos EUA.

Venezuela e segurança regional

A postura diante da Venezuela é outro ponto de atrito. O governo Lula reconheceu problemas na eleição venezuelana, mas evitou medidas duras. Já Flávio critica o que chama de diplomacia ideológica e promete posição mais firme contra regimes autoritários.

Na segurança, a classificação de PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas pelos EUA divide os candidatos. Lula resiste a esse enquadramento por questões de soberania, enquanto Flávio apoia uma cooperação mais próxima com Washington.

O que muda para o brasileiro que vive nos Estados Unidos

Para a comunidade brasileira nos EUA, a eleição mexe primeiro no bolso e depois na burocracia. Entender esses efeitos ajuda a tomar decisões mais seguras nas próximas semanas.

Dólar e remessas para o Brasil

O câmbio costuma ser o primeiro termômetro. No fim de setembro, o dólar estava perto de R$ 5,18, e o real foi a única moeda latino-americana a se valorizar no mês, em parte por apostas do mercado na corrida eleitoral.

Analistas projetam movimentos de até R$ 0,30 logo após o primeiro turno, para cima ou para baixo, conforme o resultado. Em 2022, o dólar chegou a oscilar mais de 10% entre março e outubro acompanhando as pesquisas.

Se você costuma enviar dinheiro dos Estados Unidos para o Brasil, vale dividir remessas maiores em partes ao longo de outubro. Assim, você reduz o risco de converter tudo num dia de cotação ruim.

Negócios que importam produtos brasileiros

Mercados, padarias e restaurantes brasileiros nos EUA sentem as tarifas no preço de reposição. Um acordo comercial pode aliviar custos em 2027, mas um impasse prolongado tende a manter os preços altos nas prateleiras.

Consulados, vistos e imigração

A política imigratória americana é definida em Washington e não muda por causa da eleição brasileira. Porém, um clima diplomático melhor ou pior influencia temas como cooperação em deportações, acordos consulares e atendimento a brasileiros.

Seu voto também conta

Os Estados Unidos têm o maior eleitorado brasileiro fora do país, com cerca de 265,4 mil pessoas aptas a votar. Quem tem domicílio eleitoral no exterior vota apenas para presidente e vice, nos locais definidos pelos consulados.

Antes de ir às urnas, confira se está tudo certo com o seu documento e veja como regularizar o título de eleitor para as eleições de 2026. Algumas atitudes práticas ajudam nesta reta final:

  • Confirme o seu local de votação no aplicativo e-Título
  • Leve documento oficial com foto no dia da eleição
  • Se não puder votar, justifique a ausência pelo e-Título ou numa seção eleitoral no exterior
  • Fique atento à data do possível segundo turno, em 25 de outubro

O fator Washington: as eleições americanas também pesam

Pouca gente lembra, mas a relação bilateral depende dos dois lados do mapa. Em 3 de novembro de 2026, os americanos vão às urnas nas eleições de meio de mandato, que renovam toda a Câmara e parte do Senado.

Isso importa porque a Suprema Corte deixou claro que tarifas amplas exigem base legal aprovada pelo Congresso. Um Congresso com nova composição pode ampliar ou limitar a margem de manobra da Casa Branca na política comercial.

As tarifas atuais sobre o Brasil, porém, usam instrumentos que dão mais autonomia ao presidente, como investigações por práticas desleais. Por isso, mesmo com mudanças no Congresso, a decisão final continua concentrada no governo Trump.

Na prática, o próximo presidente brasileiro vai negociar com o mesmo interlocutor até janeiro de 2029. A diferença estará no tom, nas concessões oferecidas e na disposição de cada lado em ceder.

Conclusão: uma relação que vai além de quem vencer

A relação Brasil-EUA vai mudar de tom dependendo do resultado das urnas, mas dificilmente de um dia para o outro. Lula oferece continuidade, diversificação e defesa da soberania, com o risco de manter o impasse tarifário.

Flávio oferece reaproximação rápida com Washington e uma agenda de abertura, com o risco de atritos com a China e com parceiros do Mercosul. Em ambos os casos, boa parte das decisões continuará nas mãos da Casa Branca.

Para quem vive nos Estados Unidos, a melhor estratégia é acompanhar o câmbio de perto, planejar remessas com calma e manter os documentos brasileiros em dia. Informação de qualidade é a sua melhor proteção em um período de tanta incerteza.

E lembre-se: se você está apto a votar, sua escolha também ajuda a definir os rumos dessa relação. Confira seu local de votação e participe.

Você também pode gostar

Preencha os campos para ser atendido por nossos especialistas em documentação.

Olá! Preencha os campos abaixo para
iniciar a conversa no WhatsApp

Olá! Preencha os campos abaixo para
iniciar a conversa no WhatsApp