Fake news e deepfakes nas eleições 2026 deixaram de ser uma ameaça distante. Hoje, eles circulam todos os dias nos grupos de WhatsApp de brasileiros que vivem nos Estados Unidos.
Um áudio com a voz idêntica à de um candidato pode ter sido fabricado em poucos minutos, a partir de alguns segundos de gravação real. E quem recebe quase nunca tem tempo ou ferramenta para desconfiar.
O risco aumenta na reta final. O primeiro turno aconteceu em 4 de outubro e um eventual segundo turno está marcado para 25 de outubro, justamente na disputa presidencial, a única em que o brasileiro no exterior vota.
Neste artigo, você vai entender o que o TSE decidiu sobre conteúdo manipulado, quais sinais denunciam uma voz clonada, como checar um vídeo antes de encaminhar e onde denunciar, mesmo morando fora do Brasil.
O que o TSE decidiu sobre deepfakes nas eleições 2026
As regras de propaganda deste ano estão na Resolução TSE nº 23.610/2019, atualizada pela Resolução nº 23.755, de 2 de março de 2026. O texto não proíbe o uso de inteligência artificial nas campanhas, mas separa o conteúdo sintético comum do deepfake.
Essa diferença importa para o eleitor. Uma peça feita com IA pode ser legal se vier sinalizada, enquanto a imitação realista de uma pessoa para favorecer ou prejudicar candidatos é vedada.
O que conta como deepfake para a Justiça Eleitoral
Em 1º de setembro de 2026, o tribunal fixou uma tese, por 5 votos a 2, que define o conceito. Deepfake é o conteúdo gerado ou manipulado por IA com realismo suficiente para criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a fala de uma pessoa viva, falecida ou até fictícia.
A mesma tese estabeleceu que a proibição específica só se aplica quando o material é caracterizado como propaganda eleitoral. Para isso, a Justiça avalia o conteúdo, a linguagem, o público atingido e o contexto da divulgação.
Na prática, nem todo vídeo falso será retirado do ar pela via eleitoral. Para quem está no grupo da família, a lição é simples: a responsabilidade de checar antes de acreditar continua sendo sua.
O aviso obrigatório de IA e o silêncio antes de cada turno
Peças de campanha feitas ou editadas com IA precisam trazer um aviso claro. No áudio, o alerta vem antes da mensagem; na imagem, aparece no próprio material; no vídeo, as duas formas se somam.
Chatbots e avatares de campanha também precisam se apresentar como artificiais e não podem simular uma conversa direta com o candidato ou com outra pessoa real.
Além disso, nos três dias que antecedem cada turno e no dia seguinte à votação, nenhum conteúdo novo criado por IA pode ser publicado, republicado ou impulsionado, mesmo que traga o aviso.
Um detalhe que poucos explicam: a falta do aviso é um sinal de alerta, mas a presença dele não torna o conteúdo verdadeiro nem legal. Nos casos mais graves, o TSE prevê até a cassação do registro ou do mandato, além de apuração criminal.
Por que os grupos de brasileiros nos EUA viraram alvo preferido
São 918.876 brasileiros aptos a votar no exterior em 2026, um crescimento de 31,8% em relação a 2022, distribuídos por 186 cidades. Os Estados Unidos concentram uma das maiores fatias desse eleitorado.
Três fatores deixam essa comunidade mais exposta à desinformação. O primeiro é a distância: sem TV aberta brasileira e com jornadas longas de trabalho, muita gente se informa quase só pelos grupos da igreja, do serviço ou do bairro.
O segundo é a confiança. A mentira se espalha com facilidade porque chega por um amigo ou parente, e essa pessoa também pode ter sido enganada sem perceber.
O terceiro é a diferença de horário. Um conteúdo que começa a circular de madrugada no Brasil pode passar horas sem desmentido, enquanto os grupos na Califórnia ou no Texas ainda estão ativos.
O volume também assusta. Um levantamento da agência Lupa apontou alta de 308% nos deepfakes, e um monitoramento internacional do German Marshall Fund encontrou áudio gerado por IA em 69% dos deepfakes eleitorais acompanhados.
Voz clonada: 8 sinais de que o áudio pode ser falso
O áudio é o formato favorito de quem fabrica desinformação, porque é barato, rápido e difícil de verificar. Segundo a McAfee, três segundos de gravação real já bastam para criar uma imitação com 85% de semelhança.
Políticos têm horas de discursos disponíveis na internet, o que facilita ainda mais o trabalho. Em setembro, o Projeto Comprova analisou um áudio atribuído a um candidato à Presidência e apontou 99,2% de chance de ele ter sido gerado artificialmente.
Antes de ouvir pela segunda vez, preste atenção nos pontos abaixo. Nenhum deles prova sozinho uma fraude, mas a soma de vários deve acender o alerta.
- Ninguém respira. Pessoas reais tomam fôlego entre as frases. Vozes sintéticas costumam encadear falas longas sem nenhuma pausa para respirar.
- Ritmo e volume constantes demais. A fala humana acelera, hesita, gagueja e enfatiza palavras. No áudio clonado, a cadência tende a ser regular e o volume, artificialmente estável.
- Emoção fora do lugar. Uma denúncia grave narrada com calma excessiva, ou entusiasmo sem motivo, indica que a IA não acertou o tom da situação.
- Palavras emboladas. A ferramenta pode tropeçar em termos que não estavam na gravação original, como nomes próprios, siglas e expressões regionais.
- Emendas no meio da frase. Mudanças bruscas de ênfase, de qualidade ou de ruído sugerem trechos gerados separadamente e colados depois.
- Fundo que não combina. Silêncio absoluto num suposto comício, chiado contínuo ou eco de estúdio numa conversa que seria “gravada escondida” merecem desconfiança.
- Vocabulário que não é dele. A IA copia a voz, mas não o estilo. O roteiro foi escrito por outra pessoa, e isso costuma aparecer em expressões que o candidato nunca usa.
- Qualidade ruim de propósito. Áudio abafado ou cortado dificulta qualquer análise e serve de desculpa para imperfeições que denunciariam a montagem.
Atenção ao outro lado da moeda: a compressão do WhatsApp também deforma gravações verdadeiras. Por isso, os sinais sonoros precisam ser combinados com a checagem da origem, que mostramos mais adiante.
Vídeo manipulado: onde olhar antes de acreditar
Nos vídeos, os defeitos clássicos ainda aparecem, mas estão cada vez mais raros. Especialistas lembram que um deepfake pode parecer perfeito, enquanto um vídeo verdadeiro pode ter atraso de sincronia por causa da baixa qualidade.
Comece pela boca. Os lábios acompanham cada sílaba, inclusive letras como P, B e M, que exigem fechar a boca? Depois observe dentes, mãos e orelhas, partes que a IA ainda costuma deformar ou borrar.
Repare na luz e no ambiente. Sombras que não batem com a posição do sol, reflexos diferentes no rosto e nos óculos ou iluminação uniforme demais indicam montagem.
No fundo da cena, pessoas duplicadas, placas com letras ilegíveis e objetos que mudam de forma entre um quadro e outro são pistas valiosas. Piscadas raras ou expressões que não acompanham a emoção da fala também merecem atenção.
Procure ainda o rótulo de conteúdo sintético. Plataformas como YouTube, Instagram e TikTok já exibem selos para material gerado por IA, e a lei eleitoral exige aviso nas peças de campanha.
Por fim, lembre que nem toda fake news usa inteligência artificial. Muitas vezes o vídeo é real, mas antigo, cortado ou tirado de contexto, por isso vale conferir a data e buscar a versão completa.
As fake news mais comuns sobre o voto de quem mora fora
Nem toda mentira é sobre candidatos. Boa parte da desinformação que chega aos brasileiros nos EUA mira o próprio processo de votação no exterior. Esses boatos misturam meias-verdades com mentiras e assustam quem está longe.
“Sua seção no consulado mudou de endereço”
Mensagens anunciando troca de local de votação na véspera são um clássico. Antes de acreditar, confira seu local no aplicativo e-Título ou no site do consulado responsável pela sua jurisdição.
A Justiça Eleitoral exige pelo menos 30 eleitores aptos para criar uma seção no exterior. Mudanças existem, mas são comunicadas pelos canais oficiais, nunca por um áudio anônimo.
“Quem não votar vai perder o passaporte ou ser deportado”
Ninguém é deportado dos Estados Unidos por deixar de votar no Brasil. O que existe é multa para quem não vota nem justifica, e o risco de cancelamento do título após três turnos seguidos de ausência sem justificativa.
Um título irregular, aí sim, pode travar a emissão de passaporte e outros documentos. Entenda as consequências reais de ignorar o título de eleitor irregular antes de acreditar em ameaças exageradas.
“Dá para votar pelo celular” ou “pague uma taxa para justificar”
O voto é presencial, inclusive no exterior. O e-Título serve para consultar dados e justificar a ausência, e a justificativa é gratuita.
Para o primeiro turno de 2026, o prazo vai até 3 de dezembro; para um eventual segundo turno, até 8 de janeiro de 2027. Veja como fazer a justificativa eleitoral para brasileiros no exterior e desconfie de qualquer link que peça pagamento.
“Os votos do exterior não contam” ou “a urna do consulado foi fraudada”
Os boletins de urna do exterior integram a totalização nacional normalmente. Neste ano, 1.282 seções fora do país usam urna eletrônica e 28 funcionam com votação manual.
Alegações de fraude sem prova concreta devem ser denunciadas no Siade, o canal do TSE para desinformação sobre o processo eleitoral.
Checagem em 6 passos antes de apertar o encaminhar
Não existe um único sinal capaz de confirmar que um conteúdo foi produzido por IA. A verificação precisa considerar o material, a origem e o que se sabe sobre o suposto acontecimento.
- Pare antes de reagir. Conteúdo que provoca raiva ou medo imediato foi feito para ser compartilhado sem reflexão. Essa reação é o primeiro sinal de alerta.
- Descubra a origem. Quem gravou, onde e quando? No WhatsApp, o selo “encaminhada com frequência”, com duas setas, indica que a mensagem já passou por muitas mãos antes de chegar até você.
- Procure na imprensa e nos canais oficiais. Se um candidato realmente disse algo chocante, veículos jornalísticos e os perfis verificados dele terão registrado a fala.
- Consulte os checadores. A página Fato ou Boato, do próprio TSE, reúne verificações de agências como Lupa, Aos Fatos, Fato ou Fake, Estadão Verifica e Projeto Comprova.
- Faça a busca reversa. Tire um print de um quadro do vídeo e pesquise no Google Lens para descobrir se a imagem já circulou em outro contexto ou data.
- Compare com falas verdadeiras. Ouça discursos e entrevistas verificados da mesma pessoa e repare se o jeito de falar, as expressões e o ritmo batem.
Se nada disso trouxer confirmação, não encaminhe. A ausência de prova não garante que o conteúdo seja falso, mas é motivo suficiente para redobrar a cautela.
E quando o boato já está no grupo? Responda com educação, sem expor quem enviou, e compartilhe o link da checagem. Uma frase como “vi que isso foi verificado, segue o resultado” evita briga e protege os demais.
Ferramentas de detecção ajudam, mas não dão a palavra final
Existem serviços gratuitos ou com versão de teste que analisam se um arquivo foi gerado por IA. Entre os mais citados estão Hive Moderation, AI or Not, Hiya Deepfake Voice Detector e o DeepFake-O-Meter, da Universidade de Buffalo.
Algumas ferramentas têm alcance limitado. O classificador da ElevenLabs só reconhece áudios criados com a tecnologia da própria empresa, e o SynthID, do Google, detecta apenas a marca d’água invisível inserida em conteúdos gerados pelas ferramentas do Google.
Em um teste do site PolitiFact com um áudio falso de Joe Biden, o DeepFake-O-Meter foi o mais preciso, mas indicou só 69,7% de probabilidade de IA. Pesquisadores ouvidos na reportagem afirmaram que ainda não é possível confiar plenamente nesses detectores.
Esse caso, aliás, mostra como o tema já afeta a vida nos Estados Unidos. Depois da ligação automática com a voz clonada de Biden, em 2024, a FCC passou a considerar ilegais os robocalls feitos com vozes geradas por IA.
Use as ferramentas como mais uma peça do quebra-cabeça. O resultado delas deve ser somado à checagem da origem, nunca substituí-la.
Onde denunciar mesmo morando nos Estados Unidos
Os canais da Justiça Eleitoral funcionam pela internet, então a distância não impede a denúncia. O segredo é escolher o canal certo, o que agiliza a análise.
| Canal | Quando usar | Como acessar |
| Pardal | Propaganda irregular de candidato, partido ou campanha, incluindo deepfakes em peças de propaganda | Aplicativo gratuito para Android e iPhone, com login pelo e-Título ou Gov.br |
| Siade | Desinformação sobre o processo eleitoral: urnas, local e horário de votação, páginas que imitam a Justiça Eleitoral, mensagens que desestimulam o voto | Página do Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral no site do TSE |
| MPF Serviços | Deepfakes e violações que pedem atuação do Ministério Público Eleitoral | Portal de serviços do Ministério Público Federal |
No Pardal, é possível anexar fotos, vídeos, áudios e links, e o nome de quem denuncia é mantido em sigilo. Até o início de outubro, o aplicativo já tinha recebido mais de 51 mil registros em todo o país.
Antes de denunciar, guarde provas: print da mensagem com data e hora, o link original quando existir e o número que enviou o conteúdo. Segundo o Ministério Público Federal, as denúncias podem levar à retirada imediata do material e à responsabilização de quem criou e de quem compartilhou.
No próprio WhatsApp, você também pode denunciar a mensagem ou o contato. Isso ajuda a plataforma a limitar a circulação de correntes falsas.
Golpes que usam a eleição e a voz clonada como isca
A mesma tecnologia que fabrica declarações falsas de candidatos também alimenta golpes financeiros. Na reta final, circulam vídeos de políticos pedindo Pix para “salvar a campanha” ou prometendo benefícios em troca de cadastro.
A regra é nunca fazer pagamentos com base em vídeos, áudios ou mensagens recebidas pelas redes sociais. Campanhas oficiais têm canais próprios de arrecadação, divulgados pelos candidatos e registrados na Justiça Eleitoral.
Outro golpe comum entre imigrantes é o falso atendimento consular. Alguém liga ou manda mensagem dizendo que seu título será cancelado e oferece “regularização expressa” mediante taxa paga por link ou Zelle.
Há ainda a clonagem da voz de parentes. Golpistas usam trechos de vídeos publicados nas redes para imitar um filho ou um pai pedindo dinheiro com urgência, e o período eleitoral, com o celular cheio de áudios, facilita a confusão.
Uma proteção simples é combinar uma palavra-segura com a família. Se alguém ligar pedindo ajuda financeira, pergunte a palavra antes de qualquer transferência.
Perguntas frequentes
Compartilhar um deepfake sem saber pode me trazer problemas?
Quem cria e quem compartilha conteúdo que viola as regras eleitorais pode ser responsabilizado. A boa-fé conta, mas o caminho mais seguro é não encaminhar nada que você não conseguiu confirmar.
Conteúdo com aviso de IA é sempre permitido?
Não. O aviso é obrigatório para peças de campanha feitas com IA, mas não autoriza o uso de deepfake para favorecer ou prejudicar candidatos, nem a publicação de conteúdo novo de IA nos três dias anteriores a cada turno.
Brasileiro que mora nos EUA pode usar o Pardal?
Pode. Basta ter o aplicativo instalado e fazer login com o e-Título ou a conta Gov.br, o que exige que seus dados eleitorais estejam acessíveis.
Vídeo sem nenhum defeito visual é verdadeiro?
Não necessariamente. A falta de erros visuais não garante autenticidade, assim como a presença de falhas não confirma manipulação, já que a compressão dos aplicativos também degrada vídeos reais.
O que fazer se um deepfake usar a minha imagem ou a de um parente?
Guarde todas as provas, denuncie o conteúdo na plataforma onde ele circula e, se houver uso eleitoral, registre no Pardal ou no Siade. Em casos de golpe financeiro nos EUA, também vale registrar uma queixa na polícia local.
Antes de encaminhar, lembre-se
A tecnologia dos deepfakes avança mais rápido do que a capacidade de qualquer pessoa de identificá-los só com os olhos e os ouvidos. Por isso, a melhor defesa não é técnica: é o hábito de desconfiar, checar a origem e esperar a confirmação.
Cada áudio que você deixa de encaminhar sem verificar é uma corrente de desinformação interrompida no grupo da família, da igreja ou do trabalho. Em um eventual segundo turno no dia 25 de outubro, esse cuidado vale tanto quanto o seu voto.




